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Ninguém trabalha tanto em SP quanto os estrangeiros, diz estudo


Por marciobasso 24/10/2011 - 07h41

Há nove anosem São Paulo, a argentina Andrea Rodriguez, 30, prolonga as jornadas de trabalho para driblar a saudade dos pais. A espanhola Maria de Las Mercedes Casselhas, 64, faz o mesmo, porém “para se sentir uma vencedora”. O alemão Birger Kamrath, 36, é categórico: esforça-se mais para ganhar dinheiro.
As razões são diferentes, mas levam ao mesmo resultado: entre os moradores da região metropolitana, ninguém trabalha tanto quanto os estrangeiros. A conclusão consta do estudo Perfil dos Migrantesem São Paulo, divulgado neste mês pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
“O estrangeiroem São Paulo, em grande parte, é dono do próprio negócio. E fica no comércio o dia todo. Por isso, aparece como quem trabalha mais”, explica Herton Araújo, autor da análise em parceria com Ana Luiza Machado. Segundo o estudo, 31,3% dos moradores que vêm de outros países trabalham por conta própria, o maior índice da pesquisa.
Minoria entre os habitantes da região metropolitana, os estrangeiros lideram no quesito tempo de dedicação ao serviço: 58,2% deles declararam trabalhar 45 horas ou mais por semana. Assim, superam paulistas, mineiros, baianos e cearenses. “Esse resultado não era esperado”, afirma Araújo. “Mas o paulista trabalha mais com carteira assinada, por isso cumpre menos horas.” Pela lei, empregados podem trabalhar, normalmente, até oito horas diárias –ou 40 semanais.
As razões para que quem vem do exterior dedique mais horas à vida profissional variam. “Nosso ponto fraco é a família”, diz Andrea. Ela e o marido, igualmente argentino, revezam-se na administração do Petali, empório do casal no Mercado Municipal, e de um frigorífico. “Para não sentir tanta falta da família, do idioma e de alguns costumes, mergulhamos no trabalho.”
O italiano Eugênio Saporito, 73, também dono de uma banca no Mercadão, orgulha-se de desconhecer o que são férias há 12 anos. “Não tem necessidade. Você se acostuma a trabalhar”, argumenta. Ele chegou ao país em 1952. Foi feirante, dono de padaria e de bar. “O camarada que troca de país tem de progredir. Para ficar passando necessidade, fica na terra dele.”
A vontade de progredir é a justificativa de Maria Casselhas, para as muitas horas fora de casa. “É uma coisa de vencedor: ter garra”, defende a dona da rede de padarias Pão do Parque, na zona oeste. “Acordo às 5h e, por telefone, já vou controlando.” Ela chega cedo aos estabelecimentos e neles permanece por até 12 horas. “Não é só pelo dinheiro, é pelo prazer de fazer alguma coisa.”
No caso do japonês Masanobu Haraguchi,58, aocupação é tamanha que mal permite pausas para conversas. Preocupado com os documentos à sua frente, ele respondeu em duas palavras, traduzidas por um intérprete, o motivo das 12 horas diárias que cumpre no restaurante Ban, na Liberdade, região central, do qual é sócio: “Meu destino”. Completou dizendo que trabalha porque gosta e precisa. Fim de papo.
Antes, no mesmo bairro, a sãopaulo tentara conversar com um japonês dono de uma peixaria. Concentrado em suas tarefas, ele pediu à reportagem que voltasse outra hora.
Direto como os asiáticos, o alemão Birger opta por uma resposta “sem romantismo”. “Gostaria de dizer que trabalho porque gosto do que faço, mas o objetivo é ganhar dinheiro”, diz o economista, que administra um fundo de investimentos, um restaurante e uma consultoria de gestão.
Ele se mudou de Portugal para o Brasil em 2009. “Na Europa, consegue-se viver bem com menos dinheiro. Aqui, a diferença entre trabalhar oito e 16 horas é grande.” E o tempo para a família? “Não é fácil. Mas a minha namorada aceita.”
LONGA JORNADA
Os estrangeirosem São Paulo:
Representavam 1% do total de moradores da região metropolitana em 2009
 46% completaram o ensino superior, a maior taxa entre os moradores
Ganhavam, em média, R$ 4.058,62 por mês –R$2.052,87 amais que os paulistas
1/3 trabalhava por conta própria, a maior proporção registrada no estudo
Tinham a 2ª menor taxa de desemprego: 4,3%; os 1os são os mineiros, com 3,3%
Fonte: www.folha.com.br

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