Novo Tempo

legenda

Novo Tempo

Morno e sem sal

Leia a análise do primeiro debate entre os presidenciáveis


Por marciobasso 09/08/2010 - 05h07

Já comeu comida sem sal? Em caso afirmativo, muito provavelmente o gosto não é o mesmo de uma alimentação bem temperada. Pois é mais ou menos assim que se sente quem assiste a algo como o primeiro debate entre alguns candidatos a presidente da República, realizado dia 5 de agosto, com transmissão da TV Bandeirantes.
O sono me alcançou com algum tempo decorrido do tal debate. Excelente, mais uma vez, a promoção da Rede Bandeirantes. Quanto a esse aspecto, nada a declarar. O motivo da sonolência, além é claro do trabalho rotineiro, foi, sem dúvida, o caráter letárgico do dito confronto de ideias de Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva e Plínio Arruda.
Até onde vi, a mornidão e a insipidez das discussões promovidas sob o olhar atento dos marqueteiros de plantão não devem ter empolgado o leitor mediano e mesmo o pouco afeito a eleições. E os mais intelectuais, então, certamente devem ter se recolhido ainda mais cedo que eu diante da insuficiência de argumentos relevantes a respeito de projetos e programas voltados à sociedade brasileira.
Plínio Arruda, figura exótica da campanha, intitulou-se porta-voz dos movimentos sociais e saiu com mais de meia dúzia de perguntas prontas para os adversários. Certamente colheu o que tem chegado a ele, inclusive através das redes sociais onde opera bem, e tentou colocar contra a parede a tríade bem posicionada nas pesquisas.
Sinceramente não foi uma grande sacada. Mexeu com alguns temas, mas ficou evidente que sua candidatura soa mais como promoção pessoal ou do partido do que efetivamente interesse em governar a nação. Afinal de contas, Plínio Arruda é um porta-voz da comunidade, um angariador de popularidade para outras campanhas posteriores ou candidato à presidência em 2010? Ficou a dúvida.
Marina Silva, para tentar escapar da imagem de candidata de um assunto só (meio ambiente), dialogou sobre outros temas. Foi bem consistente, mas fraca na retórica. Infelizmente ou felizmente (dependendo do ponto de vista), para uma nação de eleitores com pouco costume de análise crítica e mesmo escolaridade, não basta apenas o conteúdo. É preciso ter uma forma atraente. Marina parece necessitar de mais apoio neste sentido.
José Serra é o mais experiente em debates. Já convive há mais tempo com esta realidade, o que ficou claro no programa transmitido pela Bandeirantes. Já adquiriu experiência suficiente para dar respostas evasivas quando necessário e sabe levantar assuntos de seu interesse. Obviamente com orientação de profissionais pensantes de mercado.
Falhou, na minha opinião, ao proferir fracas críticas ao governo atual, endereçadas à Dilma Rousseff. Se sua intenção era atacar, a munição parecia escassa. Tratou de questões como APAEs e outras abordagens muito periféricas que provavelmente não chamam a atenção da maior parte da população. Perdeu a chance de mexer com temáticas que poderiam deixar a candidata governista menos cômoda.
E Dilma Rousseff fez logicamente o papel de advogada do governo atual, ligando, sempre, sua imagem ao do bem sucedido e popular mandatário dos últimos anos Luiz Inácio Lula da Silva. Esforçou-se para parecer simpática diante das câmeras e de um programa muito bem planejado.
Seus tropeços na língua pátria podem ser explicados pelo nervosismo de estreia em debates, já que é acostumada aos palanques com monólogos ovacionados por correligionários estrategicamente sempre bem posicionados. Saiu-se melhor do que poderia imaginar, na minha avaliação, em parte mais por frágil oposição do que por mérito.
Permaneceu, também, no discurso da mesmice e se limitou à continuidade da propaganda oficial do Governo Lula sem qualquer prurido em se expor como candidata da manutenção. Diga-se de passagem, tanto do que está dando certo, quanto do que não está indo bem.
Em suma, o primeiro debate dos presidenciáveis em 2010 ficou muito aquém dos históricos debates, inclusive o de 1990, quando gente do calibre de Leonel Brizola, Mário Covas, Fernando Collor, o próprio Lula, Paulo Maluf, entre outros, ao menos trouxe à baila o contraditório.
Não os reputo exemplos de ética ou honestidade, mas, pelo menos, o debate tinha mais gosto. Agora, nem isso.
Felipe Lemos