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Brics condicionam ajuda ao FMI a maior poder de decisão


Por marciobasso 29/03/2012 - 11h00

Os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) condicionam aumentar os recursos que põem à disposição do FMI (Fundo Monetário Internacional) a um aumento nas cotas e, por extensão, no poder de fogo de que dispõem no Fundo, até aqui limitado a meros 10% do total de cotas (e votos).
É o que consta claramente da “Declaração de Déli”, o documento final da quarta cúpula do grupo, ontem encerrada na capital indiana.
Depois de reclamar do “lento ritmo das reformas” que lhes permitiriam aumentar suas cotas para 16%, numa primeira etapa, os Brics propõem claramente a barganha: “Enfatizamos que o esforço em andamento para aumentar a capacidade de empréstimo do FMI só serão bem sucedidos se houver confiança de que todos os membros da instituição estão realmente comprometidos a implementar a reforma de 2010 de boa fé”.
A reforma de 2010 foi fechada na cúpula do G20 e prevê um aumento das cotas dos países em desenvolvimento até levá-las a 16%, no caso dos Brics, assim mesmo apenas empatando com o poder de um só país, os Estados Unidos.
O aumento dos recursos para o FMI é tido como essencial para que a instituição tenha cacife para ajudar países em crise, especialmente os grandes da Europa, como Espanha e Itália, assediados pelos mercados. Mas a Europa por si só não tem recursos suficientes para erguer um muro de proteção financeira, pelo que necessita recorrer ao FMI, que, por sua vez, passaria o pires nas potências emergentes.
A ideia de barganhar apoio ao Fundo em troca de mais cotas circula já faz tempo, mas nunca havia sido colocada no papel de forma tão explícita e, ainda por cima, assinada pelos chefes de governo, não pelos seus ministros de Economia.
Ainda na área econômica, o texto dos Brics retoma a queixa que a presidente Dilma Rousseff vem manifestando seguidamente, a de que as medidas tomadas pelos países ricos para sair da crise prejudicam os países em desenvolvimento.
Diz o documento: “A excessiva liquidez decorrente das agressivas ações políticas tomadas pelos bancos centrais para estabilizar suas economias domésticas está contagiando as economias emergentes, estimulando uma volatilidade excessiva nos fluxos de capital e nos preços das commodities”.
Tradução: como os BCs norte-americano e europeus estão despejando rios de dinheiro na economia para destravá-la, sobram recursos para serem investidos em países, como o Brasil, em que as taxas de juros são incomparavelmente mais altas do que no mundo rico. Sobram também especular com commodities, gerando eventuais bolhas.
A receita dos Brics para solucionar o nó é “restaurar a confiança dos mercado e recolocar a economia global no caminho do crescimento”. Fácil de falar, muito difícil de fazer.
Os Brics, tal como já havia sido antecipado, não manifestaram apoio a nenhum dos três candidatos lançados para substituir Robert Zoellick na presidência do Banco Mundial. Limitaram-se a saudar as candidaturas surgidas do mundo em desenvolvimento, sem dar nomes (são o da nigeriana Ngozi Ogonjo-Iweala e o colombiano José Antonio Ocampo).
Mas a expectativa é de que acabe ganhando mesmo o candidato dos EUA, Jim Yong Kim, reafirmando uma tradição que vem desde a fundação do Banco, em 1944, de ser presidido por um norte-americano.
Os Brics lutavam para que a eleição se desse não por esse critério geográfico mas “por um processo aberto e baseado no mérito”, tese que reafirmaram ontem.
Exatamente pelas queixas que têm a respeito do funcionamento do Banco Mundial, os Brics decidiram criar um grupo de trabalho para estudar a formação de seu próprio banco de desenvolvimento, uma iniciativa que entusiasma Índia e África do Sul, mas que, no Brasil, recebe apoio pouco mais que protocolar.
O raciocínio nas áreas técnicas do governo é o de que um país que tem um banco do porte do BNDES, maior que o próprio Banco Mundial, não precisa de outro banco de desenvolvimento.
O GT estudará os sérios nós em torno da criação do banco: quem entra com quanto de capital? Por extensão, quem comanda o processo decisório, a chamada governança? Autoridades brasileiras temem que a China, com suas colossais reservas, se torne de longe o maior acionista e, por extensão, domine o novo eventual banco, impondo políticas de seu interesse que podem não coincidir com os do Brasil.
A previsão dos negociadores brasileiros é a de que os estudos estarão prontos apenas para a cúpula de 2014.
CLÓVIS ROSSI
ENVIADO ESPECIAL A NOVA DÉLI
Fonte: www.folhaonlibne.com.br