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Brasil olímpico ainda é muito frágil, diz psicólogo João Ricardo Cozac


Por marciobasso 13/08/2012 - 09h31

Atrás de países como a Jamaica, Coréia do Norte, Irã e Cazaquistão, o Brasil terminou sua participação nos Jogos Olímpicos no modesto 22º lugar da classificação geral. Nada de novo para um país que investe mais de 80% de seu orçamento esportivo no futebol. Ainda assim, vários atletas, de forma heróica, conquistaram medalhas sensacionais. Até porque, chegar ao podium olímpico com os baixíssimos investimentos, ausência de mídia e apelos publicitários, falta de quadras, campos, clubes, condições favoráveis de treinamento e uma política esportiva minimamente moderna e ousada é tarefa para poucos. Muito poucos.

Apesar de todas as dificuldades, modalidades como o handebol, judô, basquete masculino, natação, pentatlo moderno, maratona e tantas outras que poderiam competir por medalhas caso houvesse um olhar e condições profissionais para o desenvolvimento e formação de novos atletas. Mas isso, vale dizer, não acontece de um ano para o outro. Nem de quatro em quatro anos. Até porque, amigos, o ciclo olímpico para a formação de atletas em condição de brigar por medalhas deve durar oito anos.

E o que dizer do trabalho psicológico? Alguns profissionais foram mobilizados pelo COB para acompanhar os atletas. O problema é que esta mobilização ocorreu muito pouco tempo antes do evento e, como sabemos, não é possível mudar padrões de pensamento e emoção em períodos curtos de treinamento mental. Os Estados Unidos, por exemplo, levaram 28 psicólogos na delegação. Cada qual com trabalhos desenvolvidos desde 2008 com os atletas e equipes de diversas modalidades. Por aqui, muitos psicólogos que atuam com atletas olímpicos não estiveram em Londres por conta da falta de apoio e valorização do COB que optou em fazer comissões de profissionais oferecendo a eles poucas oportunidades e tempo limitado para o desenvolvimento adequado das atividades.

Vivemos numa cultura com características peculiares em suas demandas afetivas, carências e fragilidades emocionais, sociais, comportamentais, políticas, econômicas e midiáticas. A expressão e exposição destes valores ocorrem em eventos internacionais de grande porte.  A identidade do povo brasileiro – historicamente – é dependente de ícones, mitos e heróis. Esta projeção maciça é carregada na bagagem emocional de nossos atletas quase sempre desguarnecidos de um apoio profissional adequado para auxilia-los no enfrentamento destes imensos desafios. O fato é que estes quatro anos que nos afastam das Olimpíadas no Brasil poderiam ser otimizados se o COB saísse um pouco mais do discurso e das intenções e partisse para uma ação conjunta com clubes, instituições esportivas, profissionais de ponta nos diversos segmentos da preparação desportiva.

Sobre o futebol, vou me ater apenas à seguinte reflexão: temos atletas envernizados pela vaidade, soberba, identidade dissipada em meio a tanto dinheiro e celebridades que são apenas jogadores de futebol. Nada mais. No feminino, confesso, não esperava grandes coisas. Uma modalidade que praticamente inexiste no país não tem a menor chance de lutar contra países que investem fortunas no desenvolvimento de atletas e equipes vencedoras. 

Os Jogos Olímpicos de Londres encerraram o ciclo de vários atletas brasileiros e novas gerações deverão ser formadas. Não tenho dúvidas que o voleibol continuará forte já que conta com uma estrutura diferenciada em todos os níveis – inclusive humanos, institucionais e psicológicos.É inconcebível que um país que conta com um povo saudável, forte, cheio de habilidades motoras, recursos naturais e paixão pelo esporte passe este tipo de vexame.

Assim como em cada quatro anos – o momento é de reflexão e, logo (por favor), de mudanças! 

João Ricardo Cozac 

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Fonte: http://www.ceppe.com.br/index.php/prof-joao-ricardo-cozac.html

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